Blog onde se pretende registar um pouco da história das lutas e intervenções em defesa do ambiente nos Açores.
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domingo, dezembro 29, 2013
quarta-feira, agosto 07, 2013
sexta-feira, agosto 17, 2007

Plantas Medicinais e Educação Ambiental
É por demais conhecida, por um lado, a importância das plantas medicinais para a saúde humana e, por outro lado, a preocupante situação em que se encontram a nível mundial. A este respeito, em 1988, na Declaração de Chiang Mai, a Organização Mundial de Saúde chamava a atenção das Nações Unidas para a crescente e inaceitável perda destas plantas devido à destruição do seu habitat e às práticas insustentáveis de recolha.
Entre nós, os primeiros povoadores terão trazido consigo o conhecimento empírico e a grande maioria das plantas usadas na medicina popular. A prova está no que escreveu Gaspar Frutuoso a este propósito. Assim, referindo-se à ilha de Santa Maria, Frutuoso menciona “um João Vaz Melão, que se chamava das Virtudes, pela com que curava, natural de Viseu, donde veio à ilha logo no princípio, depois de ser achada... onde tinha muita fazenda e uma grande casa que lhe não servia mais do que dos enfermos que de muita parte o buscavam, os quais ele curava, por amor de deus, só com ervas e azeite, sem mais outra mezinha”. Do mesmo modo, ao descrever a fertilidade da ilha Terceira, Frutuoso relata a existência de “muito mel e bom pasto para ele, como é alecrim, rosmaninho, erva ursa, ou timo, queiró, poejos, cubres e muitas flores de árvores diversas, muito género de ervas, de que usam os boticários”.
As plantas medicinais poderão ser utilizadas como instrumento facilitador no processo de educação ambiental. Por outro lado, o trabalho com as plantas medicinais, por parte de todos os agentes educativos, a ser implementado, deverá contribuir para a valorização da cultura popular e para a conservação das plantas medicinais e dos conhecimentos que se têm sobre cada uma delas.
Neste texto, pretendo apenas apresentar algumas sugestões de actividades que podem ser feitas nas escolas, usando as plantas medicinais como recurso.
Em primeiro lugar, o estudo das plantas medicinais poderá oferecer uma oportunidade para interligar conhecimentos de várias disciplinas. A título de exemplo, refira-se que é possível explorar conteúdos da química (composição, produção de misturas, etc.), da biologia (fisiologia vegetal, saúde, habitats, etc.), da educação visual (desenho das plantas), da geografia (origem geográfica e diversidade das plantas), da história (o cultivo das plantas ao longo dos tempos), etc. Com a revisão curricular em curso, nas nossas escolas, o estudo das plantas usadas na medicina popular poderá ser um bom tema a tratar na Área de Projecto.
No que diz respeito à Educação Ambiental, a montagem de um herbário com as plantas medicinais usadas numa dada localidade é uma actividade que poderá entusiasmar os alunos. Ligada à montagem do herbário está sempre subjacente uma visita de estudo para a colecta das plantas, uma pesquisa sobre as designações comuns de cada uma delas, os seus nomes científicos, as exigências em termos de solos e água, os fins a que se destinam, as partes que devem ser utilizadas, eventuais contra indicações e perigos no seu uso e outras utilizações das plantas na região. A procura de informações sobre as diversas plantas não se deve limitar à pesquisa bibliográfica ou ao recurso à internet, é muito importante que se façam entrevistas a pessoas, sobretudo as mais idosas, que conheçam e/ou usem as plantas no seu dia a dia.
Outra actividade que poderá contribuir para a educação dos jovens alunos, para além de contribuir para a ocupação saudável dos seus tempos livres, é a criação de um pequeno jardim de plantas medicinais. Para a sua implementação, tudo o que foi dito sobre a criação do herbário pode, aqui, ser posto em prática.
Por último, toda a experiência acumulada por cada escola poderá ser alvo de divulgação, quer através da edição de uma pequena brochura, quer na produção de um vídeo ou de um CD. Para além de constituir um prémio para os alunos, que têm a possibilidade de ver o seu trabalho reconhecido e difundido, poderá ser um instrumento encorajador e facilitador do trabalho de outras escolas.
Bibliografia:
MARCATTO, C., (s/d), Utilização de Plantas Medicinais em Educação Ambiental (polic.)
(Publicado no Açoriano Oriental, 30 de Janeiro de 2002)
Etiquetas:
Educação Ambiental,
plantas medicinais
quarta-feira, julho 18, 2007
Plantas Medicinais, o seu uso ao longo dos tempos…
É antiquíssimo, perde-se na noite dos tempos, o esforço do Homem para compreender e depois usar as plantas como alimento e como medicamento.
Na antiga China, os sacerdotes não só se ocupavam da religião mas também do estudo e emprego das plantas medicinais. No livro «PENTSÃO-CANG» um verdadeiro tesouro de botânica medicinal, encontram-se mais de onze mil preparações tendo por base produtos doreino vegetal.
Os ideogramas sumérios, datados de aproximadamente 2500 a.c., enumeram vários «medicamentos» de origem vegetal e os assírios tinham pelo menos 250 espécies na sua farmacologia.
No Egipto dos Faraós, nos famosos papiros de EBERS, uma complicação de obras anteriores datada de 2600 a 2100 a.C., encontraram-se enumeradas uma grande quantidade de doenças e as respectivas ervas recomendadas para a cura.
Segundo Daniéle Laberge, na Bíblia o termo erva aparece mencionado 17 vezes. O próprio rei Salomão é autor, segundo a historia, de um magnífico herbário. Em João 19,29 é mencionado o facto de ter sido dado a Jesus hissopo (símbolo da purificação). Os ervanários de então e de hoje usam-no no tratamento de feridas já que aquele protege-as contra as infecções e favorece a sua cura.
Entre os antigos gregos destacaram-se quatro homens: Aristóteles, Hipócrates, Teofrasto e Dioscórides.
Os gregos e, mais tarde, os romanos foram os grandes herdeiros dos conhecimentos egípcios. Aristóteles estudou a história natural e botânica. Hipócrates (fins do séc.V, princípios do séc.IV a.C.) considerava a alimentação o principal remédio para a doença, acreditava que o corpo humano é, em grande parte, auto curativo. Conhecia de 300 a 400 plantas com propriedades medicinais. Teofrasto, discípulo de Platão e de Aristóteles (372-287 a.C.) é autor de uma «Historia das plantas», publicação que teve uma profunda influência no desenvolvimento da medicina e da botânica durante quase 20 séculos. Agrupou cerca de 500 plantas, tendo estudado o seu aspecto exterior, habitat, uso, etc. Discórides, que viveu no início de era cristã, é autor de uma obra «De Matéria Medica», um autêntico protótipo das nossas grandes farmacopeias. Conhecia cerca de 600 plantas que dividia em 4 grupos: aromáticas, alimentares, medicinais e as que serviam para fazer vinho.
Na sua «história natural», Plínio – o Antigo – explica-nos o que foi o herborismo romano. Dos 37 volumes constituintes da sua monumental obra, 8 são dedicados às plantas medicinais.
Galeno, nascido em Pérgamo, na Grécia, no ano de 130 e falecido em 202, em Roma, deu um grande contributo aos conhecimentos farmacêuticos, sendo as suas fórmulas (preparações galénicas) ainda hoje usadas, embora com alterações.
Com a queda do império romano do ocidente e durante toda a idade média, apenas através da labuta de alguns monges e freiras, conhecedores do latim e do grego, se manteve parte da cultura antiga e foram os religiosos que cultivaram alguns grandes jardins de plantas medicinais para tratamento de doentes. Graças ao seu contacto com o mundo árabe, onde se destacaram Avicena, Avenzoar e Ibn- el-Beithar, a chamada «escola de Salermo» exerceu papel destacado, dando um contributo considerável aos progressos da medicina do seu tempo. Deste período destacaram-se, no séc. XII, a abadessa Santa Hildegrada e o abade Alexander Neckam de Cirencester que escreveram acerca das virtudes de algumas plantas.
Com o Renascimento uma nova concepção de vida surge no mundo ocidental. A valorização da observação e da experimentação, as viagens para as índias e América originaram um novo surto de progresso no domínio da botânica e consequentemente no conhecimento no uso das plantas para os mais diversos fins.
Paracelso, no início do séc. XIV, tenta estudar e descobrir a “alma” das plantas, da qual supõe proceder o seu poder curativo. O famoso médico suíço tentou estabelecer relações especulativas entre as virtudes medicinais das plantas e as suas propriedades morfológicas, sua forma e cor.
O italiano Andrea Mattioli, contemporâneo de Paracelso, descreve cem novas espécies e comenta a obra de Dioscórides.
No séc. XVII o farmacêutico Nicholas Culpeper esvreve um obra intitulada «The Complete Herbal» que é, em parte, uma tentativa para conseguir comercializar a produção do seu jardim, em Londres. Culpeper acreditava que havia uma relação íntima entre os planetas e as plantas, tendo em 1650 afirmado: «nenhum homem pode ser médico se não for mestre em astrologia». Ainda neste século., culminando todos os anteriores esforços de classificação, o botânico sueco Lineu estabeleceu no seu «Systema Natural» uma exaustiva classificação das plantas conhecidas até então.
No século XVIII, Jean Batiste Lamarck, alem de outras obras, publica a «Enciclopédia botânica» e a «ilustração dos géneros».
Já no nosso século o prestigiado médico francês H. Leclerc (1870- 1955) introduz o conceito de fitoterapia como sendo «a ciência que se ocupa do emprego das plantas medicinais (ou dos seus estratos) no tratamento dos doentes».
Em Maio de 1978 uma resolução da XXXI assembleia-geral da Organização Mundial de Saúde determina o início de um programa mundial com o fim de avaliar e utilizar os métodos da medicina popular, nos quais se inclui o recurso à fitoterapia.
De 21 a 26 de Março de 1988, é aprovada pela Internacional Consultation on Conservation of Medicinal Plants, organizada pela Worlds Heath Organization, IUCN e WWF, a Declaração de CHIANG MAI que chama a atenção das Nações Unidas, suas agências e estados membros, organizações não governamentais, etc., para:
1- a importância vital das plantas medicinais no cuidar da saúde;
2- a crescente e inaceitável perda destas plantas medicinais devido à destruição do seu habitat e praticas insustentáveis de recolha;
3- O significativo valor económico das plantas medicinais utilizadas actualmente e o grande potencial do reino vegetal para a produção de novos medicamentos;
4- A contínua perturbação e perda de culturas indígenas que muitas vezes têm conhecimentos que levam à descoberta de novas plantas medicinais que podem beneficiar toda a comunidade;
5- A necessidade urgente de cooperação internacional para estabelecer programas de conversação de plantas medicinais a fim de assegurar que quantidades adequadas estejam disponíveis para futuras gerações.
Teófilo de Braga (membro dos Amigos dos Açores/Associação Ecológica)
(Publicado no “Correio dos Açores”, em 11 de Abril de 1991)
É antiquíssimo, perde-se na noite dos tempos, o esforço do Homem para compreender e depois usar as plantas como alimento e como medicamento.
Na antiga China, os sacerdotes não só se ocupavam da religião mas também do estudo e emprego das plantas medicinais. No livro «PENTSÃO-CANG» um verdadeiro tesouro de botânica medicinal, encontram-se mais de onze mil preparações tendo por base produtos doreino vegetal.
Os ideogramas sumérios, datados de aproximadamente 2500 a.c., enumeram vários «medicamentos» de origem vegetal e os assírios tinham pelo menos 250 espécies na sua farmacologia.
No Egipto dos Faraós, nos famosos papiros de EBERS, uma complicação de obras anteriores datada de 2600 a 2100 a.C., encontraram-se enumeradas uma grande quantidade de doenças e as respectivas ervas recomendadas para a cura.
Segundo Daniéle Laberge, na Bíblia o termo erva aparece mencionado 17 vezes. O próprio rei Salomão é autor, segundo a historia, de um magnífico herbário. Em João 19,29 é mencionado o facto de ter sido dado a Jesus hissopo (símbolo da purificação). Os ervanários de então e de hoje usam-no no tratamento de feridas já que aquele protege-as contra as infecções e favorece a sua cura.
Entre os antigos gregos destacaram-se quatro homens: Aristóteles, Hipócrates, Teofrasto e Dioscórides.
Os gregos e, mais tarde, os romanos foram os grandes herdeiros dos conhecimentos egípcios. Aristóteles estudou a história natural e botânica. Hipócrates (fins do séc.V, princípios do séc.IV a.C.) considerava a alimentação o principal remédio para a doença, acreditava que o corpo humano é, em grande parte, auto curativo. Conhecia de 300 a 400 plantas com propriedades medicinais. Teofrasto, discípulo de Platão e de Aristóteles (372-287 a.C.) é autor de uma «Historia das plantas», publicação que teve uma profunda influência no desenvolvimento da medicina e da botânica durante quase 20 séculos. Agrupou cerca de 500 plantas, tendo estudado o seu aspecto exterior, habitat, uso, etc. Discórides, que viveu no início de era cristã, é autor de uma obra «De Matéria Medica», um autêntico protótipo das nossas grandes farmacopeias. Conhecia cerca de 600 plantas que dividia em 4 grupos: aromáticas, alimentares, medicinais e as que serviam para fazer vinho.
Na sua «história natural», Plínio – o Antigo – explica-nos o que foi o herborismo romano. Dos 37 volumes constituintes da sua monumental obra, 8 são dedicados às plantas medicinais.
Galeno, nascido em Pérgamo, na Grécia, no ano de 130 e falecido em 202, em Roma, deu um grande contributo aos conhecimentos farmacêuticos, sendo as suas fórmulas (preparações galénicas) ainda hoje usadas, embora com alterações.
Com a queda do império romano do ocidente e durante toda a idade média, apenas através da labuta de alguns monges e freiras, conhecedores do latim e do grego, se manteve parte da cultura antiga e foram os religiosos que cultivaram alguns grandes jardins de plantas medicinais para tratamento de doentes. Graças ao seu contacto com o mundo árabe, onde se destacaram Avicena, Avenzoar e Ibn- el-Beithar, a chamada «escola de Salermo» exerceu papel destacado, dando um contributo considerável aos progressos da medicina do seu tempo. Deste período destacaram-se, no séc. XII, a abadessa Santa Hildegrada e o abade Alexander Neckam de Cirencester que escreveram acerca das virtudes de algumas plantas.
Com o Renascimento uma nova concepção de vida surge no mundo ocidental. A valorização da observação e da experimentação, as viagens para as índias e América originaram um novo surto de progresso no domínio da botânica e consequentemente no conhecimento no uso das plantas para os mais diversos fins.
Paracelso, no início do séc. XIV, tenta estudar e descobrir a “alma” das plantas, da qual supõe proceder o seu poder curativo. O famoso médico suíço tentou estabelecer relações especulativas entre as virtudes medicinais das plantas e as suas propriedades morfológicas, sua forma e cor.
O italiano Andrea Mattioli, contemporâneo de Paracelso, descreve cem novas espécies e comenta a obra de Dioscórides.
No séc. XVII o farmacêutico Nicholas Culpeper esvreve um obra intitulada «The Complete Herbal» que é, em parte, uma tentativa para conseguir comercializar a produção do seu jardim, em Londres. Culpeper acreditava que havia uma relação íntima entre os planetas e as plantas, tendo em 1650 afirmado: «nenhum homem pode ser médico se não for mestre em astrologia». Ainda neste século., culminando todos os anteriores esforços de classificação, o botânico sueco Lineu estabeleceu no seu «Systema Natural» uma exaustiva classificação das plantas conhecidas até então.
No século XVIII, Jean Batiste Lamarck, alem de outras obras, publica a «Enciclopédia botânica» e a «ilustração dos géneros».
Já no nosso século o prestigiado médico francês H. Leclerc (1870- 1955) introduz o conceito de fitoterapia como sendo «a ciência que se ocupa do emprego das plantas medicinais (ou dos seus estratos) no tratamento dos doentes».
Em Maio de 1978 uma resolução da XXXI assembleia-geral da Organização Mundial de Saúde determina o início de um programa mundial com o fim de avaliar e utilizar os métodos da medicina popular, nos quais se inclui o recurso à fitoterapia.
De 21 a 26 de Março de 1988, é aprovada pela Internacional Consultation on Conservation of Medicinal Plants, organizada pela Worlds Heath Organization, IUCN e WWF, a Declaração de CHIANG MAI que chama a atenção das Nações Unidas, suas agências e estados membros, organizações não governamentais, etc., para:
1- a importância vital das plantas medicinais no cuidar da saúde;
2- a crescente e inaceitável perda destas plantas medicinais devido à destruição do seu habitat e praticas insustentáveis de recolha;
3- O significativo valor económico das plantas medicinais utilizadas actualmente e o grande potencial do reino vegetal para a produção de novos medicamentos;
4- A contínua perturbação e perda de culturas indígenas que muitas vezes têm conhecimentos que levam à descoberta de novas plantas medicinais que podem beneficiar toda a comunidade;
5- A necessidade urgente de cooperação internacional para estabelecer programas de conversação de plantas medicinais a fim de assegurar que quantidades adequadas estejam disponíveis para futuras gerações.
Teófilo de Braga (membro dos Amigos dos Açores/Associação Ecológica)
(Publicado no “Correio dos Açores”, em 11 de Abril de 1991)
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